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As serifas medievais e o nascimento da impressão

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Ao fim do Império Romano sobreveio a Idade Média. O isolamento dos feudos, mosteiros, vilas e cidades, a necessidade de se defender, se proteger de quem vinha de fora, entre outros motivos, produziu um novo estilo arquitetônico, o gótico. Alongado – apontando para o céu, em um tempo onde a vida eterna era a solução dos problemas e sofrimentos da vida terrena – com janelas e portas estreitas para proteção, murado, escuro. Na escrita – e a escrita/leitura se fazia nos livros – o tipo romano foi sendo distorcido, deformado, se tornando escuro, pesado, cheio de pontas, alongados, o tipo gótico. O isolamento entre os locais onde se copiava livros, as particularidades de cada calígrafo, quem desenhava/escrevia/copiava os textos, levaram a góticos diferentes, na Alemanha, Inglaterra, Espanha, Itália. Podemos citar a Blackletter, a Fraktur, a Schwarbacher e a Rotunda.

Nesse tempo, por volta de 1447/1450, na cidade alemã de Mongúcia (hoje se chama Mainz), um antigo morador, Johann Geinzfleish retornou, depois de muitos anos, indo morar em uma casa no centro da cidade, chamada Casa Gutenberg, adotando como seu esse nome. Procurou um banqueiro, Johannes Furst, para se associar em um invento para imprimir textos, imprimir livros, usando pequenas peças de metal, com o desenho da letra em relevo, compondo-se o texto manualmente e usando essa matriz da página como um carimbo. Depois era só desmanchar a matriz e compor outros livros. Aos tipos desenhados e fundidos pelo próprio Gutenberg, ele chamou de D.K. e foram usados para compor e imprimir (em prensas de madeira) o primeiro livro, a Bíblia de 42 linhas. As iluminuras (desenhos que se faziam nas páginas, como as imensas letras coloridas e enfeitadas que abriam os capítulos, as capitulares, muitas vezes pintadas em ouro – daí o nome, pois clareavam as páginas, escuras, de texto). Supõe-se, hoje, que Gutenbrg tenha tido contato com a técnica, criada por uma civilização que existiu na península da Coréia no séc. XII, que usava pequenas peças de porcelana com o desenho dos ideogramas em relevo como matriz. Essa civilização foi escravizada pelos mongóis, que por não terem – até hoje – uma escrita formal, não se interessaram pelo invento, mas levaram seus escravos e seu conhecimento a Europa.

Essa história é muito mais complexa e cheia de golpes, intrigas e mistérios, mas, para nós, no momento, esses não importam muito.

Um dos aprendizes da oficina de Gutenberg, enviado pelo rei Luís XII, da França, Nicolas Jenson, ao retornar à França, encontra Carlos X como rei, que o manda embora, pois livros impressos não seriam dignos de um rei. Jenson vai para Veneza. Estamos então  final do séc. XV. Dois tipógrafos, Konrad Sweynheim e Arnold Pannartz, são considerados os primeiros a retornar ao desenho da letra romana, mas não são os caras importantes nessa história.

Em Veneza, Jenson vai trabalhar para aquele que é considerado o pioneiro dos editores, Theobaldo Manucci, que adotou o nome latino de Aldus Pius Manutius. Em sua homenagem, em 1984, a primeira empresa a produzir um programa de paginação para computadores (Apple Machintosh) o PageMaker, adota o nome de Aldus. Aldus Manutius encomendava o texto ao pensador ou escolhia dentre os textos enviados pelos “autores”, mandava confeccionar o tipo – que naquele momento já deixara de ser o gótico e retornara ao romano – compor, imprimir e encadernar o livro. Depois comercializava-o. O livro até então era um objeto grande e pesado, para ser lido na biblioteca ou em casa. Aldus cria o livro em pequeno formato, de capa flexível, que podia ser transportado no bolso. Dois dos seus principais tipógrafos são Jenson e Francesco de Bologna, também chamado Griffo. Este desenha uma romana levemente inclinada mas de desenhos específicos para a angulação, diferente de apenas inclinar o desenho romano, o que permite colocar mais letras numa linha, portanto, menos páginas para a mesma quantidade de texto. Logo descobrem que é um tipo de leitura mais lenta, que cansa o leitor mais rápido. Passam a usá-la apenas para destacar trechos do texto. Para grifar, em homenagem ao seu autor. E a  chamá-las itálicas, por sua origem.

Written by José Antonio de Oliveira

setembro 9, 2009 às 1:42 am

Publicado em tipografia

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